Posted October 17th 2016 at 1:15 pm by
in PAR, Participatory Action Research, Thesis Chronicles

Realizando o “direito a pesquisa” na comunidade de Conjunto Palmeiras

This post is available in English here.

“No mês de janeiro inauguramos um novo mapeamento das Riquezas, Pobrezas, Desejos e Perspectivas do bairro. Ele surge das necessidades da população por apresentar o potencial e desafios da periferia, diferente da realidade apresentada pela mídia e pela academia convencional. Um Mapa que busca gerar o espaço para pensar em ações onde a comunidade continua sendo protagonista.

Hoje mais do que nunca precisamos desse tipo de pesquisa, diante da nota do Diário do Nordeste de ontem… que mostra que 72,49% da população em idade ativa do Conjunto Palmeiras são analfabetos ou não completaram o ensino fundamental e apenas 0,60% possui ensino superior. Informações que apresentam uma realidade incompleta sobre o bairro, que desmoralizam a população local e não contribuem em buscar soluções.

Estamos propondo um processo para criar soluções a partir da experiência coletiva do bairro e da capacidade dele para ser o motor da própria inovação.”

– Resposta do PalmasLab a um artigo no jornal sobre desigualdade socio-econômico em Fortaleza

The PalmasLab and CoLab teams

Membros dos equipes de PalmasLab e CoLab. 

PalmasLab é um laboratório de pesquisa e inovação na comunidade de Conjunto Palmeiras. Situado na periferia da cidade de Fortaleza no Brasil, Conjunto Palmeiras é frequentemente retratado na mídia por ter altos índices de violência e baixos níveis de desenvolvimento. O equipe de PalmasLab acredita que narrativas como esses tem poder, e podem influenciar a maneira em que pessoas vêem a si mesmo, vêem sus comunidades, e sua capacidade de fazer câmbio.

Através de pesquisa comunitária, o equipe do PalmasLab procura recuperar o poder de definir por eles mesmo os problemas enfrentados pela comunidade, e usar essa informação para provocar ação. Luiz, um morador do Conjunto Palmeiras que faz parte do equipe do PalmasLab, explica, “Somos mais próximos do problema. A gente entende melhor do que ninguém o que esta acontecendo aqui. A gente é capaz de identificar melhor o problema, a gente é capaz de comunicar melhor com nossa comunidade porque nos fazemos parte dela.”

Através de um processo coletivo de formular perguntas e produzir informação sobre o lugar onde moram, o equipe de PalmasLab espera contestar os preconceitos e facilitar um processo através do qual os moradores possam começar a ver a sua comunidade como um lugar de potencial e transformação.

Com essa motivação, o PalmasLab começou a desenvolver sua própria projeto de pesquisa em julho 2015: um mapeamento das riquezas, pobrezas, desejos e perspectivas dos moradores de Conjuntos Palmeiras. Através de um processo de Pesquisa Ação Participativa, eu e Alison Coffey, Pesquisadora do MIT Community Innovator’s Lab (CoLab), trabalhamos junto com o PalmasLab para desenvolver o conceito da pesquisa e uma metodologia. O ponto de partida foi um reconhecimento colectivo que métodos existentes de medir o desenvolvimento comunitário – baseado principalmente em riqueza e pobreza material – criaram uma imagem incompleto do bairro.

Uma parte central das conversas iniciais foi um foco em pensar criticamente sobe o conceito de “pobreza.” Segundo Erberson, outro membro do equipe do PalmasLab, é comum ouvir que moradores do Conjunto Palmeiras moram na pobreza. Mas ele perguntou: “O que é pobreza para nos? Vivemos na pobreza mais não refletimos sobre o que é isso.

A ideia que a pobreza não é só pobreza material se tornou a base para o desenvolvimento de um novo marco conceitual que guiou o resto da pesquisa. Através de chuvas-de-ideias, diálogo e debate entre o equipe, e grupos focais com representantes de diferentes grupos no Conjunto Palmerias, identificamos uma série de riquezas e pobrezas materiais e imateriais que existem na comunidade: conhecimento, saúde, infraestrutura, mobilização, identidade, lazer, economia, cultura e seguridade. Determinamos que a ausência de qualquer dessas pobrezas, o a falta de acesso a elas, pode representar uma forma de pobreza. Luana, que faz parte do equipe do PalmasLab, explicou, “Hoje em dia a necessidades não é só de alimentação, hoje em dia a pobreza, a gente tem uma pobreza mais intelectual, pobreza cultural né? Também outras riquezas, tanto pobreza como riqueza né? É isso também que a gente precisa mapear porque muitas vezes até riqueza cultural riqueza intelectual, elas não necessariamente precisam de dinheiro para desenvolver.”

PalmasLab team conducting a focus group with community leaders

PalmasLab fazendo um grupo focal com líderes comunitários do Conjunto Palmeiras

Também discutimos as maneiras em que riquezas e pobrezas podem influenciar os desejos e perspectivas das pessoas – o que eles querem para suas vidas, e o que eles desejam fazer ou ser. Os desejos e as perspectivas que os moradores do bairro tem – inclusive se são individuais ou colectivos, de curto ou largo prazo, ou se refletem desejos materiais ou imateriais – ultimamente impactam o futuro da comunidade. Nesse sentido, o equipe sugeriu que entender as riquezas e pobrezas podem servir como uma janela ao momento atual, enquanto os desejos e perspectivas podem nós dar uma ideia sobre o future da comunidade.

Com base nesse marco conceitual, criamos um questionário para entender como os moradores vêem e experimentam as diferentes riquezas e pobrezas nas suas vidas, para identificar os seus desejos e as suas perspectivas, e para entender as conexões entre eles. Em janeiro de 2016, o equipe do PalmasLab liderou um grupo de jovens do bairro em aplicar o questionário com mais de 200 famílias do Conjunto Palmeiras. Eles usaram PalMap, uma ferramenta de base tecnológica de pesquisa que consiste de um app android junto com uma plataforma online, desenvolvido no PalmasLab. Além dos dados que o questionário forneceu, o processo de aplicar o questionário serviu como catalisador para diálogo e reflexão entre os estudantes-pesquisadores, moradores do bairro, e o equipe PalmasLab.

PalmasLab team during planning session

PalmasLab team during planning session

PalmasLab não disputa que a desigualdade existe em Fortaleza, nem que não tem impactos reais nas vidas dos Fortalezenses. Nem acreditam que as comunidades de periferia como Conjunto Palmeiras devem ser completamente auto-responsáveis por solucionar os problemas que enfrentam como resultado dessa desigualdade. O que eles rejeitam é a ideia de que pessoas de fora da comunidade devem ser os únicos para definir esses problemas.

Em criar seu próprio marco conceitual para pesquisar essas dinâmicas no lugar onde moram, o equipe afirmou o seu “direito a pesquisa” e liderou outros membros da comunidade em fazer o mesmo. Nesse processo, se engajaram em reflexão crítica sobre os conceitos que frequentemente são considerados “verdades universais”: se tem baixa renda, a comunidade é pobre; se há altos níveis de crime, a comunidade é violenta; se tem baixos níveis de educação, a comunidade é ignorante; e se tudo isso é verdade, a comunidade tem que ser subdesenvolvida. Como PalmasLab sugere na citação que abre este artigo, esse tipo de discurso pode des-empoderar as pessoas e ser uma barreira ao imaginar de alternativas.

Em vez, por engajar num processo sistemático de pesquisa e diálogo, que começou com o equipe PalmasLab e expandiu para incluir maiores números de moradores, novas verdades sobre o Conjunto Palmeiras foram reveladas, e futuros trajetórias de ação identificadas.

Este artículo é o primeiro numa série de quatro, baseado na tese de mestrado de Jenna Harvey, “Deepening Democratic Capacity Through Collective Inquiry.”

Lê o próximo artículo nessa série aqui.

Escrito por Jenna Harvey, fotos por Jenna e PalmasLab.

Comments are closed.